ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Décio Torres Cruz


Pelas trilhas do romance cinemático e da literatura pop    

Myrian Naves, pelo conselho editorial.

 

 

O romance cinemático e a ficção pop pós-moderna: o caso de Manuel Puig

 

O livro The Cinematic Novel and Postmodern Pop Fiction: The Case of Manuel Puig (O romance cinemático e a ficção pop pós-moderna: o caso de Manuel Puig), do escritor Décio Torres Cruz, faz parte da série FILLM (abreviatura de Fédération Internationale des Langues et Littératures Modernes) da UNESCO. O livro teve lançamento internacional nos sites da editora John Benjamins (Amsterdã e Filadélfia) em dezembro de 2019, da própria Federação Internacional de Línguas e Literaturas Modernas da UNESCO, da Amazon e Google Books em vários países em diferentes continentes. Encontra-se à venda em diversos sites de livrarias estrangeiras online nos cinco continentes, em países como África do Sul, Alemanha, Austrália, Barein, Canadá, China, Dinamarca, Egito, Espanha, Estados Unidos, Emirados Árabes, Finlândia, França, Holanda, Ilhas Maldivas, Índia, Islândia, Itália, Japão, Jordânia, Kuwait, Lituânia, Nigéria, Noruega, Nova Zelândia, Reino Unido, República Tcheca, Qatar, Singapura, Suécia, Taiwan e vários outros países, e também na Amazon Brasil. Como o livro foi escrito originalmente em inglês, no momento o autor está buscando editora interessada em adquirir os direitos de tradução para a língua portuguesa.

O livro discute questões de gênero e identidade, realidade e representação e a relação entre literatura, cinema e arte pop. O autor investiga os diferentes conceitos do romance cinematográfico, seu desenvolvimento no ciné-roman e em scenarios (tipo de scripts de filmes com vista à publicação) do cinema francês e os diversos usos do termo por escritores e críticos de romances cinematográficos dos Estados Unidos, Inglaterra, França e América Latina. Ele examina como o romance cinematográfico se funde com a literatura pop, usando os temas da arte e da cultura pop como subgêneros do pós-moderno. Essas características são analisadas nos romances de Manuel Puig A traíção de Rita Hayworth, Boquitas pintadas, The Buenos Aires Affair, O beijo da mulher aranha e Pubis angelical. Partindo de uma abordagem psicanalítica e histórico-social, o livro explora ainda como Puig desenvolveu o romance cinematográfico em uma colagem pop de diferentes textos, filmes, discursos e dispositivos narrativos, fundindo realidade e imaginação em sonho e desejo.

O livro destina-se não só a estudiosos dessas categorias literárias, mas também a todos aqueles interessados nas obras de autores do nouveau roman e do escritor argentino Manuel Puig, cuja obra ganha uma releitura psicanalítica e histórica bastante inovadora ao ser associada a elementos da Arte Pop e do romance cinemático.

Dividido em sete capítulos, o livro inicia com as definições e o percurso histórico do romance cinemático na França, Estados Unidos, Inglaterra e na América Latina. Após definir o romance cinemático e os termos a ele associados (closet screenplay, Lesedrama ou Lesenscenario, novelização, literatura pré-cinema ou proto-filme), a tradição francesa do ciné-roman e nouveau roman e apresentar uma perspectiva crítica do uso do termo cinemático de romances britânicos e estadunidenses, o primeiro capítulo se encerra com uma revisão do material crítico-analítico do termo cinemático aplicado aos romances de Puig. O segundo capítulo aborda a Arte Pop, associando-a à narrativa polifônica desse escritor. Partindo das definições e percurso histórico da Arte Pop, o autor discute a indústria cultural e fílmica, o kitsch e o fenômeno da democratização da cultura e arte, as técnicas e a irreverência da linguagem de Puig e o seu estilo pop carnavalizado. A partir do terceiro capítulo o autor inicia a análise da obra de Manuel Puig a partir de uma leitura histórico-psicanalítica. A primeira obra é analisada através da fusão que Puig estabelece entre realidade e ficção e como o cinema se funde a elementos biográficos em seu primeiro romance, A traição de Rita Hayworth.  Brincando com um trocadilho entre os títulos do romance em espanhol e sua tradução para a língua inglesa, “Dancing a Heartbreak Tango with Hollywood stars and their Boquitas pintadas”, o quarto capítulo aborda este romance e sua relação com o cinema. The Buenos Aires Affair é tratado no quinto capítulo através de uma análise minuciosa do papel da tradução das epígrafes e sua relação com o discurso cinemático e das notas de rodapé e o discurso do inconsciente. O capítulo 6, “The Spider Woman’s polyphonic web of desire” [A teia polifônica do desejo do Beijo da mulher aranha],é dedicado à obra mais conhecida de Puig, que foi transformada em peça, filme e musical. Através de uma análise minuciosa da estrutura narrativa e da psicologia dos dois personagens Molina e Valentín, presos na mesma cela durante o período das ditaduras militares latino-americanas, o autor traça as veredas do desejo de ambos, projetados como filmes em suas mentes. Enquanto se desenrolam as narrações fílmicas como forma de escape da triste realidade política, repressora e opressora, do qual ambos são vítimas (um como homossexual, outro como prisioneiro político), Décio Torres Cruz analisa como as narrativas fílmicas de Molina revelam o discurso inconsciente deste personagem que se funde ao discurso cinético da mesma forma que as notas de rodapé funcionam como a mente de Valentín e como ele assume a posição de psicanalista, tentando entender e explicar a sexualidade de Molina. Ao final, o autor revela como os dois personagens que antes se projetavam nos personagens fílmicos, se unem e transformam-se em um único ser. O capítulo conclui com este trecho:

The medium that creates alienation also serves as the source of criticism, functioning as a mirror of itself in an act of self-appraisal and self-destruction. If the filmic constituents do not allow for such analytic distancing, when transferred to the literary medium, the critical content surfaces, revealing both that which is latent and that which is manifest. Thus, literature becomes commensurate with a psychoanalytical process in which unconscious motifs assume different forms, similar to the dream-work in its process of condensation and displacement. Puig allows the reader to participate in his intertextual game by assuming the position of the analyst, who establishes connections and unveils the several layers of masks that disguise and repress sexuality. Kiss equates the works of the super-ego with that of political systems. It shows the social as an expansion of individuals in their attempt to break loose from the webs of desire to which they have been bound, and in which they are entrapped. (CRUZ, 2019, p. 216).1

O último capítulo é dedicado às personagens de Puig e sua fusão com a identidade mítica das divas do cinema, concentrando-se na análise da iconografia hollywoodiana e estrelato, no enredo, nos temas e na estrutura cinemática labiríntica do romance Pubis angelical. Também discute a estrutura mítica e sua transformação em um discurso que fornece modelos para o comportamento humano e como a falta de identidade dos personagens de Puig refletem a fragmentação e o descentramento do ser pós-moderno. Aborda ainda a dupla estrutura dos personagens: as divas dos filmes, que refletem uma estrutura aristotélica e horaciana, refletindo um papel matriz que possui a mesma função do mito tradicional; e os personagens do livro, moldados nos personagens fílmicos, assumem a forma Barthesiana de “um signo dentro de um sistema de signos”, como representações não só do universo psicológico do autor, mas também do leitor, tornando-se um espelho crítico do absurdo do comportamento humano em nossa contemporaneidade, anti-modelos que denunciam a fragmentação do sujeito na sociedade do espetáculo, como descrito na introdução. Aborda ainda o papel do heroi em Baudelaire, via Benjamin, e do heroi em Dostoiévski, via Bakhtin, e como os personagens na obra de Puig recusam o papel de heroi ao negarem uma identidade própria e assumirem uma identidade mítica fake. Por fim, este capítulo examina a estrutura tripartite do romance, revelando o mundo dos sonhos, cinema e os monólogos e paisagens interiores contidos na fantasia. O autor compara a estrutura tripla do romance aos três ambientes da realidade: aquela ao redor da personagem Ana numa cama de hospital no México, a violência política do universo de seu país de origem, a Argentina, e a realidade cruel da produção de cinema em sua imaginação. Segundo o autor, “the double discourse of fantasy and reality questions established structures in which machismo conflicts with new notions of women’s emancipation” (p. 22) [o duplo discurso de realidade e fantasia questiona essas estruturas estabelecidas nas quais o machismo entra em conflito com as recentes noções de emancipação feminina].

O livro conclui resumindo as novidades estilísticas introduzidas por Puig na linguagem, estrutura, temática e técnicas adotadas em cada romance analisado, enfatizando o modo como a crítica reagiu ao estilo que ele desenvolveu em seus livros, salientando os pontos que fazem com que a escrita de Puig se destaque daquelas de seus contemporâneos da geração do Boom e do pós-boom da literatura latino-americana, e assinalando a sua contribuição para a literatura pop e cinemática contemporânea. Revisa a reciclagem de artefatos em diferentes meios e ressalta a forma como Puig reuniu o moderno ao pós-moderno, estabelecendo uma quebra de paradigmas que reivindica uma nova forma estética. Além disso, destaca a importância de sua obra e o caminho traçado para as futuras gerações de escritores.

Nota:

1 Tradução: “O meio que cria a alienação também serve como fonte de crítica, funcionando como um espelho de si mesmo em um ato de autoavaliação e autodestruição. Se os constituintes fílmicos não permitem tal distanciamento analítico, ao serem transferidos para o meio literário, o conteúdo crítico vem à tona, revelando tanto aquilo que é latente quanto o que é manifesto. Assim, a literatura torna-se compatível com um processo psicanalítico no qual os motivos inconscientes assumem diferentes formas, semelhantes à elaboração do sonho em seu processo de condensação e deslocamento. Puig permite que o leitor participe de seu jogo intertextual ao assumir a posição do analista, que estabelece conexões e desvela as várias camadas de máscaras que disfarçam e reprimem a sexualidade. O beijo equipara as obras do superego àquelas dos sistemas políticos. Mostra o social como uma expansão dos indivíduos em sua tentativa de se libertar das teias de desejo às quais estão ligados e nas quais estão presos.”

 

Outras informações sobre o livro podem ser encontradas nos seguintes sites:
https://benjamins.com/catalog/fillm.13
https://www.growkudos.com/publications/10.1075%25252Ffillm.13/reader

 

 

Obras do autor

 

 

Décio Torres Cruz é escritor, crítico literário, poeta, contista, professor e pesquisador brasileiro. Ex-bolsista da Fulbright, obteve seu Ph.D. em Literatura Comparada na State University of New York (SUNY) em Buffalo, EUA. É mestre em Teoria da Literatura, especialista em Tradução e bacharel em Letras/Língua Estrangeira, com concentração em língua e literaturas de língua inglesa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Fez pesquisa pós-doutoral sobre as adaptações de Shakespeare para o cinema na Leeds Metropolitan University, Inglaterra. Além de The Cinematic Novel and Postmodern Pop Fiction: The Case of Manuel Puig (Amsterdã; Filadélfia: John Benjamins, 2019), é autor dos seguintes livros: Paisagens Interiores: Poemas (inédito, lançamento previsto para 2021); Literatura (pós-colonial) caribenha de língua inglesa (Salvador: Edufba, 2016); Postmodern Metanarratives: Blade Runner and literature in the age of image (London; New York: Palgrave Macmillan, 2014); English Online: Inglês instrumental para informática (São Paulo: Disal, 2013); O pop: literatura, mídia & outras artes (Salvador: Quarteto/Uneb, 2003; 2013); Idea Factory: 100 Games and Fun Activities for your English Classes (Salvador: Edufba, 2012; 2013); Inglês para Administração e Economia (São Paulo: Disal, 2007); Inglês para Turismo e Hotelaria (São Paulo: Disal, 2005); e Inglês.com.textos para informática (São Paulo: Disal, 2003). Além desses livros, publicou poemas, contos, traduções e diversos ensaios em português e em inglês sobre temas variados, contribuindo para pesquisas acadêmicas nas áreas de estudos de adaptação, análise do discurso, estudos comparados de literatura e cinema, estudos culturais, estudos pós-coloniais, estudos shakespearianos, linguística aplicada, línguas inglesa e portuguesa, inglês, literatura (brasileira, portuguesa, inglesa e norte-americana), metodologia, teoria literária e tradução.

Já atuou como tradutor, intérprete, professor e coordenador de cursos e de atividades culturais de vários institutos de idiomas da Bahia e do Rio de Janeiro. Possui também experiência como ator amador e diretor teatral, tendo dirigido e participado em diversas peças no Brasil e nos Estados Unidos. Professor aposentado da Universidade do Estado da Bahia e do Departamento de Letras Germânicas da UFBA, com larga experiência no ensino de diversas disciplinas, atualmente atua no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da UFBA e é membro do conselho editorial de várias revistas acadêmicas. É ainda avaliador de cursos e instituições de ensino superior para o MEC/INEP.

 

Myrian Naves, poeta, escritora brasileira, professora de Literatura Brasileira. Faz parte do conselho editorial.

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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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