ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Edson Cruz


Você há de desvendar, ou não!    

 

Em 2016, o artista plástico Yuri Firmeza gerou um reboliço em Fortaleza e no restante do país com a pretensa exposição de um artista japonês que não existia. As obras também não existiam. Aliás, a obra ou ação artística almejada por Yuri era exatamente a inexistência dela e o azáfama que ele imaginou que a mídia e críticos criariam deslumbrados pela possibilidade de a cidade abrigar um artista de vanguarda japonês. Entrevista, projeto e release haviam sido meticulosamente preparados por Yuri Firmeza e com a conivência artística do Museu de Arte Contemporânea e a direção do Centro Dragão do Mar.

Yuri, pelo que soube depois, havia sido aluno do ficcionista e ativista cultural Carlos Emílio Correa de Lima, que anos antes já havia nos mostrado sua verve fabulatória com uma intervenção artística no site Cronópios editado por mim. Ele enviou para o site, em primeira mão, uma matéria sensacional sobre o poeta canadense Joseph Clifford Hantely Holland. A matéria delineava a genealogia do escritor, mostrava as capas e resenhas de todos os seus livros e anexava uma análise crítica da obra elaborada por Alice Goldstein, baiana cultíssima e professora da Universidade Federal da Bahia.

Na verdade, tudo havia sido criado pelo Carlos Emílio. Literalmente, tudo. Achei muito instigante a ação e a publiquei com toda seriedade. Muitos se alvoroçaram, ávidos em conhecer mais sobre o tal ficcionista revelado pelo site. Nunca desmentimos nada, e creio que até hoje alguns devem ainda se perguntar por onde anda tal autor genial desconhecido.

Faço essa pequena introdução para explicitar as reflexões que alguns artistas nos impõem sobre os limites da arte, da criação, da autoria e de sua recepção. Até que ponto um artista é original? Qual é a importância de se delimitar a autoria de uma obra?

Não podemos deixar de lembrar o importante texto de Michael Foucault, O que é um Autor?, que reflete sobre o surgimento da categoria “autor”, ou, em suas palavras, a “função-autor”. Para Foucault, é da necessidade de punição à transgressão contida na escrita, ou no texto, que a função-autor surge na história ocidental. A autoria e a necessidade dela surge exatamente com essa função: identificar melhor aquele que deverá ser punido pelo status quo, pelo sistema, pela igreja, pela sociedade. Antes desse advento não se levava em consideração a autoria dos textos e, por sua vez, o conceito de plágio era inexistente.

No entanto, sabemos que as coisas não são mais assim há algum tempo. Já passamos pelas vanguardas, pelo dadaísmo, por Duchamp, pelas estratégias múltiplas de criação que reconhecem nos objetos, artísticos ou não, a sedimentação de níveis de significação onde tudo pode ser uma janela para alguma outra coisa.

Quando nada mais se cria efetivamente, mas tudo se copia, ou se recicla, quais seriam os limites éticos e estéticos de uma ação criativa? Posto de outra forma, há algum limite que não possa ser ultrapassado pelo ato criativo?

Longe de querer aqui dar uma resposta, coloco esse tema depois de acompanhar o trabalho compartilhado no facebook pelo poeta Diego Pansani. Ele o apresenta assim: “Da série 23 poemas com marca-texto um pouco fosforescente (inédito, 2020)”.

O trabalho é um tipo de montagem poética em cima de um texto que, à primeira vista, supõe-se ser do poeta, ou somos levados a crer. A resultante é muito bonita e de uma força poética que, literalmente, salta aos olhos.

 

 

O que, a meu ver, é problemático no gesto poético do Diego é que não há a indicação de autoria do texto original que ele retrabalha. E também há o fato de ele colocar no título da série, que só começava, a palavra ‘inédito, 2020’.

Podemos notar (pra quem se dá o trabalho de ler o texto coberto pela cor vermelha), que um nome (wilmar silva) se inscreve no último verso do poema. Isso poderia ser uma dica da verdadeira autoria do texto, mas talvez não seja suficiente, ou seja um artíficio que mais vela do que revela.

Há um recorte palimpséstico na ação, creio, que só se evidencia para o leitor que reconhece o texto original (ou foi avisado por alguém), que sabe (por já ter lido, ou seja, é um leitor da boa poesia que rola fora do mainstream) que ele fora escrito pelo poeta Wilmar Silva e já havia sido editado em livro pela Anome Livros em 2006. Aliás, a imagem trabalhada e postada é uma foto da página do livro.

Algumas pessoas reconheceram o texto. O poeta e editor Daniel Osiecki comentou no post:
Daniel Osiecki Diego, muito bom, mas como amigo e editor do Djami Sezostre, me sinto na obrigação de pedir que você insira em sua postagem a fonte. Esse poema é do poeta Djami Sezostre, publicado pela primeira vez em 2006 no livro “Estilhaços no Lago de Púrpura”, como Wilmar Silva (um dos nomes que Djami já usou em suas publicações, no Brasil e no exterior). Indicando a fonte, já agradecemos imensamente. Um abraço.

A resposta do Diego abre o jogo, mas fica a dúvida de que talvez só o tenha feito dessa forma por lhe ter sido apontado o original.

Diego Pansani Olá, Daniel Osiecki, tudo bem?

Sim, o poema original em que trabalhei, compondo esse palimpsesto e que eu tenho aqui em mãos é o Estilhaços no Lago Púrpura, do Wilmar Silva. Inclusive, uma das seções do meu próximo livro seria dedicado a ele, que não conheço pessoalmente, mas que de alguma maneira me moveu para essa dança.


Por mais que haja uma autoria inegável relacionada a essa obra (“Estilhaços…”) creio que com essa apropriação o resultado é completamente outro. Tenho feito esse procedimento (blackout, ready-made, montagem etc) com a poesia de outros autores e autoras, porque me parece um exercício da nossa época, que mobiliza diversas questões do contemporâneo.


Em outros poemas que fiz, publicados aqui no Facebook também, utilizo uma caneta preta, e por isso não se transparecem as palavras riscadas, como um recurso de sugestão interruptiva. Porém, nesse caso, optei por uma cor diferente, justamente para deixar uma penumbra da autoria primeira – aliás, o nome do Wilmar pode ser visualizado num dos versos, sob a tinta vermelha.
Eu acredito que, como em outras formas de diálogo e referenciação, aqui, pelo procedimento estético acrescentado, teríamos a modificação da obra original publicada num livro, aliás, primoroso.
Mas se vcs (o autor e o editor) acharem que a minha intervenção não cria um outro texto, não cria uma outra linguagem, não cria um outro poema, e mais, se vcs acharem que há uma ofensa indireta nesse posicionamento estético, ao contrário de um diálogo e até, como citei acima, uma homenagem ao trabalho anterior, eu apagarei a postagem.


Uma última consideração, Daniel, que gostaria de fazer, é que só estou aqui justificando um procedimento estético porque conheço a Kotter editorial, seus autores e autoras e pra mim é uma questão de classe respeitar e homenagear as pessoas que trabalham com arte e literatura em nosso país. Em meu último livro, o Nenhuma Poesia, minhas apropriações foram de outro tom e, nele sim, muito mais crítico e incisivo em relação à autoria e aos atores que, por ironia ou ênfase do destino, talvez não gostariam de ter seus nomes associados a mensagens que, sim, também poderiam ser reclamadas a eles.


Por acreditar que há um trabalho adicionado ao texto prévio e que isso modifica totalmente a obra, criando uma outra, é que não coloco a fonte, como faria num trabalho estritamente científico. Mas fico no aguardo de vcs para saber se consegui esclarecer alguns pontos e se apago a postagem. Abração

A questão que salta, depois da hábil e informada resposta do Diego, é se a resultante realmente modificou (pra melhor) a obra original. Do meu ponto de vista, creio que a apropriação e o procedimento estético abafou de certa forma a potência que há no original e, como não foi logo de cara explicitada a autoria, não sei se, fosse eu o autor, a teria recebido como uma homenagem. Talvez sim, por conhecê-lo e gostar do que já li de seu trabalho.

Em todo caso, acho que Diego deveria ter tido o cuidado de explicitar a autoria de texto tão potente, visto que o poeta (embora desconhecido da maioria dos leitores incautos) é uma voz de alta voltagem incontornável na nova poesia brasileira.

 

 

Diego não deixa por menos e, como se percebesse o imbróglio, respondeu palimpsésticamente que em algum momento alguém iria/irá demarcar a necessidade de punição de sua trangressão. Espero que não seja o caso deste meu texto.

Já disse um poeta que “toda poesia já/ escrita / não se equipara / a toda poesia / inscrita / a poesia jaz”. Talvez seja isso o que ele esteja querendo nos mostrar.

No fim das contas, o leitor devidamente informado e contextualizado só teria a ganhar em conhecer (se ainda não o conhecia) um autor que não pode mais ser ignorado (por mais que ele tenha palimpsesticamente também alterado seu nome no percurso) pelos leitores brasileiros.

Por outro lado, o gesto de marcar a autoria, mais do que (conforme nos mostrou Foucault) identificar quem deveria ser punido ou incensado, demarcaria ainda mais a instigante trajetória poética inicial de Diego.

 

 

Taí o autor da transgressão original. Merece toda a nossa punição, ou será que já a teve?

 

Poemas vertidos ao espanhol de Djami Sezostre (há palimpsestos entre idiomas também?): www.vallejoandcompany.com/13-poemas-de-lagrimas-en-el-lago-de-purpura-2006-de-djami-sezostre/

 

 

Edson Cruz é poeta e editor. Criador e editor do histórico portal Cronópios e agora do site Musa Rara (www.musarara.com.br). Tem oito livros publicados. Seu novo livro já está em pré-venda pela Kotter Editorial com o título de Pandemônio. E-mail: sonartes@gmail.com

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Paginação:

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