ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Wil Prado


Seguindo os passos do poeta    

 

Na estrada com Salomão

         Conheci Salomão Sousa no início de 1977, no extinto Correio do Planalto, quando ele, no último semestre do curso de Jornalismo, chegava ao jornal para fazer seu estágio, e fora lotado na editoria de polícia, onde eu trabalhava há algum tempo como repórter. Eram anos de chumbo, repressão e censura, mas, jovens e idealistas, achávamos que poderíamos mudar o mundo. E a literatura era a única janela que tínhamos para flertar com essa mudança.

         Nosso trabalho de repórteres de polícia não era nada romântico. Visitar delegacias, locais dos crimes, entrevistar bandidos e vítimas — uma rotina tenebrosa mesmo para repórteres experientes, que dirá para “focas”. Contudo havia uma válvula de escape: “O grito da cidade” — espaço que o jornal reservava para crônicas, aberto a todos os membros da redação. Salomão e eu terminaríamos usurpando a tal coluninha. Era lá que fugiríamos da bruta realidade dos crimes para dar vazão à fantasia. E ali Salomão e eu publicamos nossas primeiras prosas literárias.

         Concluído o seu estágio, Salomão, que, desde 1973, era funcionário da Fundação Educacional do Distrito Federal, mudou para Ministério da Economia. O Correio do Planalto iria à falência e eu passara a me virar como freelance. Mas nossa relação de amizade continuaria através de lançamentos de livros, revistas literárias, encontros de escritores — e tudo o mais que se referisse à Esquiva Dama. Amizade que nos ligaria para sempre, ainda que com alguns hiatos, uns largos, outros nem tanto, por conta e culpa dos calços e percalços da vida.

         Dessa breve passagem pela redação, Salomão Sousa levaria para toda vida a amizade de Archibaldo Figueira, repórter político e um dos primeiros tradutores de Agatha Christie no país.

         Um terceiro amigo — Ronaldo Alexandre — também tirado a poeta, viria se juntar a nós, formando o trio que, apropriadamente, Salomão intitularia de “Os três mosqueteiros”. Amizade que seria cultivada entre encontros e saraus, e que pariria dois números de Esbarros, um folheto artesanal, xerocado e grampeado por nós mesmos, reunindo poemas de Salomão e Ronaldo aos contos desse escriba.

         Trindade, todavia, que não resistiria por muito anos às agruras literárias: o terceiro mosqueteiro, mais dotado de juízo do que os outros dois, não demoraria a abandonar o circuito literário para se tornar funcionário ministerial. No que, temos que reconhecer, agiu com a mais pura sensatez. Contudo, a amizade entre os três permanece até os dias de hoje.

         Em uma cidade nova e ainda sem pontos culturais definidos — a Brasília da década de 70 —, descobríamos a Associação Nacional de Escritores (ANE) — funcionando provisoriamente em uma sobreloja da SQS 415. Lá manteríamos os primeiros contatos com a intelectualidade local: Almeida Fischer (fundador e primeiro presidente da ANE), Cassiano Nunes, Anderson Braga Horta, Domingos Carvalho da Silva, Fernando Mendes Viana, Napoleão Valadares, Alan Vigiano, Danilo Gomes, Esmerino Magalhães Jr. e tantos outros que a memória me rouba.

         Outro achado da época foi o Encontro Nacional de Escritores. Promovido pela  Fundação Cultural do Distrito Federal, anualmente reunia escritores em torno de palestras e debates, quando eram anunciados os vencedores dos prêmios de poesia, conto e romance. Ali tivemos a oportunidade de conhecer celebrados nomes da nossa literatura.

         Num desses encontros iríamos conhecer Inácio de Loyola Brandão, que nos autografaria o seu premiado Zero, recusado por quatro editoras nacionais, e publicado com estrondoso sucesso na Itália. Anos depois, sairia no Brasil, infelizmente censurado, logo em seguida, por “atentado à moral e aos bons costumes”. Nesse breve encontro, em uma suíte do Hotel Nacional, ele, indignado, anteciparia para nós parte do discurso que faria ao receber seu prêmio. Em cima da hora, na azáfama, Loyola se deu conta de que não havia trazido um paletó. O que fazer? Olhei bem para ele, tinha mais ou menos o mesmo corpo que eu, calculei. Não tive dúvidas, tirei meu paletó e emprestei para ele. E, assim, os três, atrasados, descemos para o auditório.

         Mas esses encontros, por vezes polêmicos, também tinham o seu lado glamouroso. E um deles seria a recepção oferecida por Dinah Silveira de Queiroz, na sua residência, onde teríamos a oportunidade de conhecer a lendária mansão “A Muralha”, título de um dos seus sagrados romances.

         Jorge Amado veio a Brasília lançar seu Tieta do Agreste. Na fila de autógrafos — quase dobrando o quarteirão —, o poeta, eu e Esbarros 2, folheto com capa do cartunista Siroba, colega de redação. Não podíamos perder a oportunidade de empurrar o livreco, ainda que soubéssemos que o festejado escritor recebia dezenas de livros e manuscritos por onde passava; e aquele seria apenas mais um a entulhar sua estante, quiçá o cesto de lixo.

         Qual não foi a surpresa ao recebermos, pelo correio, livros do autor com generosas dedicatórias. “Para o poeta Salomão Sousa, admirador da sua poesia que não é cera — é chama!” e “Para Wil Prado, com os votos de um feliz ano-novo com paz, liberdade e bom trabalho literário, do leitor (e admirador) dos seus contos publicados em Esbarros 2. Gostei; realmente!”.

         Noutra oportunidade, João Antônio, que acabava de lançar Leão de Chácara, veio a Brasília, convidado pelo diretório acadêmico de uma Universidade local. Durante a palestra, dele nos aproximamos, tornando-nos amigos, ocasião em que aproveitamos para convidá-lo a fazer outra palestra na UnB, onde eu estudava e tinha certa ligação com o diretório estudantil. Só que, na empolgação, esquecemos de alertar ao palestrante sobre o momento conturbado que a universidade atravessava: protestos contra o regime, assembleias estudantis, pairava a ameaça de greve geral, a essas alturas já com todos os acessos bloqueados e cercada por policiais militares e civis.

         Foi nesse clima de guerra que João Antônio, Salomão e eu penetramos pela ala sul do minhocão, até o anfiteatro onde se realizaria a palestra. Lembro-me que logo ao chegar ao campus ele estranhou a situação. Explicamos que não haveria problema, pois tínhamos a autorização do Departamento, e havíamos nos comprometido a não falar de política. Ele nos olhou meio incrédulo e desabafou: “Porra, vocês estão me levando para dentro da toca dos leões!” Contudo não se intimidou; e, para felicidade dos três, a palestra ocorreu sem maiores contratempos. Teoricamente, o João não era um escritor engajado, contudo não fugiu às inevitáveis perguntas políticas dos estudantes — que esse pequeno episódio fique aqui anotado para uso de algum biógrafo de plantão.

         Por competência e mérito, no Ministério da Economia, com os anos Salomão galgaria os devidos postos até chegar ao cargo de assessor; ao passo que eu, acomodado no IBGE, subalternamente, me empenhava em levantar dados estatísticos que, a contragosto do establishment, revelavam as carências sociais da população brasileira, cada dia mais acentuadas, embora o ufanismo do regime insistisse em dizer que “Esse é um país que vai pra frente!”

         Contudo, mesmo agora em regime de tempo integral, sempre achávamos um jeito de contribuir, com matérias literárias, para revistas e jornais. Eu, como sempre, em navegações de pequena cabotagem, ao passo que ele já se lançava além-mar, inclusive selecionado pela revista Anto, de Portugal, sob o título de 47 poetas brasileiros.

         A essas alturas, Salomão já com vários livros publicados, era partícipe de importantes antologias regionais e mesmo nacional, como A nova poesia brasileira, selecionada por Olga Savary e A Poesia goiana do século XX, organizada por Assis Brasil.

         Faço aqui um parêntese para revelar um episódio à parte. Ora direis: e o que tem isso a ver com o caso? Eu explico. Pode que talvez sirva de matéria a futuros exegetas do poeta; senão que pelo menos de consolo a alguma alma solitária.

         Era um furioso fim de tarde, desses que só ousam acontecer em Brasília. Íamos à cata de alguma livraria ou de uma mesa de bar. (À época, havia uma boa simbiose entre ambos, como foi o caso da livraria Literatura, do bibliófilo José Salles Neto, onde passamos algumas tardes de sábado). Ele ia cheio de planos e poemas, vazando versos dos bolsos; eu, casmurro e cabisbaixo, de veio e vida vazios. Ele vinha de livro recém-publicado, eu de uma paixão mal resolvida. De repente, não mais que de repente, como um soluço, larguei a frase no ar: “Ando no mundo da lua e sem ver estrelas.”. Na hora, ele nada disse. Mas, dias depois me mostrou um poema intitulado “Roubo dos versos”: “Estou no mundo da lua/e sem ver estrelas. // Roubo estes versos/ de alguém que os disse/na rua. /Roubo como se rouba/os olhares da moça/debaixo dos braços do moço. //Ficarão para serem teus, /para com eles/recolher estrelas/de ti perdidas.”.

         O que mais dizer de um cara que flagra a alma da gente, rouba nossas inquietações mais íntimas e cristaliza tudo isso num poema tão singelo?!

         Só posso acrescentar que, entre encontros e desencontros, percorremos juntos um dos trechos mais belos da nossa existência, até que a “força” da vida — como ela sempre faz — se encarregou de afastar-nos, brandindo as armas da sobrevivência: trabalho, casa, família, obrigações a torto e a direito! E cada um seguiu o seu caminho. Ele, contudo, embora encarcerado em funções burocráticas, permaneceria fiel ao seu mister poético, participando de lançamentos, palestras e lançando seus próprios livros, colhendo admiração dos seus pares e o respeito dos críticos; enquanto eu me dispersava por outros desvãos, nada literários, ainda que nunca perdesse o fito da literatura.
        
Com a licença do poeta (pois bem sei que não estou aqui para isso!), mas termino por meter o bedelho onde não fui chamado. Prestei-me a dar mero depoimento sobre nossa ciranda literária — já que amigos fomos de juventude literária — e agora extrapolo, invadindo gleba que não me diz respeito, posto que não sou poeta nem crítico nem nada. É que muito tocou-me a leitura do denso manuscrito — agora este exemplar em nossas mãos —, e não pude conter-me.

         Em uma linguagem estranhamente trabalhada, com metáforas invertidas (pervertidas?), a biografia poética resgata o que viu/ viveu, mas também o que não viveu nas suas lembranças interioranas pelos charcos e calvos dos rios da sua infância. Mas também é a biografia do imaginário, do que nunca existiu, mas existe no memorial da imaginação.

         No Evereste da carreira literária de Salomão Sousa, olho para cima um tanto pasmo. Aqui está o homem-poeta, com toda a sua carga de emoção e espanto. E, mudo, só posso dizer que é com imenso júbilo que recebo esse presente: o privilégio de poder ajuntar minhas palavras superficiais e passageiras a análises profundas e duradouras de críticos abalizados.

Ω Ω

O refúgio do guerreiro

         Agora quero falar da casa do poeta. Quem já teve o privilégio — entre os quais me incluo — de frequentá-la há de concordar comigo que ela merece um capítulo à parte na sua biografia.

         Começo destacando a sua emblemática proximidade com a linha do trem, dando-lhe um romântico ar de casa do interior (em plena capital da república), e favorecida ainda por ser a última do conjunto, que acaba em uma área verde querendo se fazer de bosque. É aí que o poeta — saudoso das suas remotas origens rurais, talvez — ultimamente tem retomado o contato com as pequenas coisas da natureza, aguçando seu faro botânico-biológico. Já o ouvi por mais de uma vez contar da sua proximidade com pássaros — sabiás, sanhaços, joões-de-barro —, borboletas, libélulas e outros insetos, minunciosamente investigados pela sua curiosidade poética. Influência de Manoel de Barros, um dos seus poetas prediletos? Talvez.

         Agora vamos deixar o bucolismo da paisagem e adentrar à casa propriamente dita.

         Desde que lá estive pela primeira vez, que muito me impressionou a quantidade de livros lá armazenados. Uma verdadeira biblioteca particular. É sabido que escritores gostam de livros — faz parte da nossa formação — e pude constatar isso na casa de muitos que conheci. Mas nada semelhante ao que encontraria na casa de Salomão. São milhares de volumes a transbordarem das estantes, escalando paredes, invadindo desvãos de escadas, garagem, mesas e sofás — como as águas de um rio a transbordar por todos os lados. E a autopergunta era insopitável: porque Salomão compra tantos livros, se tem consciência de que é humanamente impossível lê-los todos?

         Essa resposta eu só encontraria muitos anos depois, ao ler um dos seus mais belos e pungentes depoimentos — “Reflexões do autor”, in Safra quebrada: “Até perto dos quinze anos, não tive outro livro entre as mãos além da pequena cartilha que meu pai buscou na cidade para que eu fosse alfabetizado…”. A atitude de se cercar do maior número de livros possível não seria uma forma de compensar a carência deles na infância-adolescência?

         Deixo a questão para exegetas e analistas, cuido aqui apenas de tentar recriar o clima acolhedor e aconchegante daquela que se tornaria um ponto de encontro. Lá o poeta, hospitaleiro e aglutinador, reuniria os amigos não apenas para falar sobre livros e literatura, mas para literalmente compartilhar a vida — e tudo isso, é bom que se diga, regado a umas boas doses de vinho ou cuba-libre, que também ninguém é de ferro, né? Para tanto, claro, ele sempre contou com a cumplicidade da sua companheira Tita, às vezes um tanto distante da ebulição vocabular de excitados convivas, mas sempre serena e atenta anfitriã.

         Nessa casa, eu teria a fortuna de conhecer interessantes personagens dos meios literários, como os poetas José Godoy Garcia, João Carlos Taveira, Nilton Maciel, Esmerino Magalhães Júnior, e, mais recentemente, o crítico de cinema e memorialista Herondes Cézar e o professor e poeta Antonio Miranda, amigos de sala, cozinha e biblioteca. Velhas amizades que o poeta — embora sempre angariando novas —, tem tido o cuidado de preservar. “As amizades são grandes ramas que temos que cuidar com claridade para impedir que parasitas depositem seus danos sobre elas”. É uma bela metáfora que ele, ao longo de toda a vida, vem cuidando de regar.

         Contudo, é bom que se registre que essa pacata casa não foi palco apenas de embates culturais. Também seria o picadeiro de um importante encontro político. Vou explicar isso melhor. Embora não seja um homem partidário (ainda que sua poesia nunca tenha deixado de ser engajada, no bom sentido da palavra), por um acaso do destino Salomão iria se ligar à Cristovam Buarque.

         Sucede que o poeta estava organizando Conto Candango e Cristovam fora indicado por um amigo comum para participar da antologia. (Anos depois, já reconhecido como político e escritor, Cristovam diria que Salomão foi o seu primeiro editor). Desse contato brotaria uma relação de amizade que se estenderia além da literatura, entranhando-se mesmo pela política, a ponto de podermos afirmar que foi na casa do poeta que ele realizaria uma das primeiras reuniões de sua campanha para governador do Distrito Federal. Ele, que foi um dos primeiros a acreditar no potencial político de Cristovam, reuniu vizinhos, parentes e amigos para debate com o candidato.

         Não se assustem. Para a felicidade nossa, e de todos os seus amigos e admiradores, Salomão não se deixou contaminar pelo vírus da política. Continuou a laborar seus poemas, dando-nos, de tempos em tempos, os belos volumes que hoje fazem parte da história da poesia brasiliense. Haja vista a sua inclusão — em ensaio crítico de Alessandro Eloy Braga, divulgado pela internet e com previsão de edição em 2021 — entre os mais significativos autores da cidade.

         Poeta do seu tempo, Salomão esteve sempre à crista do novo, e, com o advento da internet, foi um dos primeiros escritores a criar seu próprio blog. “Safraquebrada”.

         Para finalizar. Ainda que os versos não estejam à altura, é com eles que faço minha derradeira homenagem:

 

         Cantares a um artesão
 
                   Para Salomão Sousa
 
         Com as ferramentas da intuição
         e a argila do dia a dia,
         vais moldando a tua poesia.

         Como o padeiro amassando o pão,
         as palavras vão brotando
         uma a uma das tuas mãos.

         Artesão de matéria indefinida,
         Sopras no barro sem formas
         o fôlego infindo da vida.

         Uma pitada de angústia,
         uma gota de solidão:
         plasma o orvalho em canção.

         Sabedoria de Salomão,
         teus salmos transcendem a matéria:
  a poesia — é a tua religião.

 

 

Wil Prado (03.07.1952), romancista, natural de Teresina (PI). Com pais funcionários públicos do IPASE, teve passagem pelo Rio de Janeiro antes de aportar-se em Brasília. Cursou dois anos de Letras na Universidade de Brasília (UNB). Atuou na imprensa antes de ingressar no IBGE (1979), onde trabalhou até aposentar-se. Publicou o romance Um Vulto Dentro da Noite pela editora Chiado (Portugal), que mereceu e-mail elogioso de Raduan Nassar. Membro da Associação Nacional de Escritores.

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Paginação:

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